Fragmenturas

Fragmentos de vida que a literatura, o cinema, a música e a vida deixam por aí…

Saga. Setembro 22, 2009

Arquivado em: Uncategorized — dpiacesi @ 7:43 pm

Se ela fosse andar,

andaria por superfícies de bolha de sabão.

Se ela fosse andar,

Escorregaria por dentro da bolha de sabão.

E se ela fosse mais longe,

Seria levada de vento.

 

Se ela fosse andar:

borbulha-furta-cor.

Se ela fosse andar:

bolinha-alegria-menina.

E se ela fosse mais longe,

Seria lavada de amor.

 

Se ela for andar,

deixa a menina criar asas.

Se ela for andar,

Entenderia que só chega quem foi.

E se ela fosse mais longe,

Seria lívida de paz.

 

Tendo ela andado,

Caminho virou destino.

E tendo ela andado,

Colinho virou desejo.

E se ela for mais longe.

Está lavada de luz.

22.09.2009

Débora Piacesi

 

O MAR PESSOAL Julho 21, 2009

Arquivado em: Uncategorized — dpiacesi @ 11:35 pm

De repente, no mar salgado

De Pessoa e Portugal

Percebo a linha de fundo:

A de Boaventura, abissal.

 

Por te cruzar,

Quem chorou fui eu…

A que propósito, afinal¿

 

Valeu a pena, alma pequena¿

Dei-me o risco,

Não reputo perigo a Deus.

 

Mas minha alma,

Sempre pouco de terra e muito de mar,

Ainda aguarda céu espelhado,

Espalhado para todos os lados.

21.07.2009

Débora Piacesi

 

 

PORTUGAL EM PROVA E VERBO, EM PROSA E VERSO. Maio 5, 2009

Arquivado em: Uncategorized — dpiacesi @ 3:17 pm

É sempre difícil começar por algum lugar que não seja o começo.

As conclusões mais fáceis são aquelas às quais se chega apressadamente. Pronto. É cedo para qualquer definição. Mas acredito que quanto menos tempo temos para o novo, mais severos são os juízos formados. Não posso sair detestando isso ou aquilo apressadamente porque fiz uma escolha às cegas de adotar, nesse espaço e tempo, Portugal por pátria temporária. Minha mãe me ensinou a ser grata. Meu pai também. Sendo assim, minhas primeiras impressões de imigrante têm o olhar de quem quer abraçar o esquisito. Meu desejo sempre esteve no novo, no desconhecido, no diferente. Gosto de reconhecer pessoas, cheiros, postos por esse viés.

Nesse reconhecimento inicial, eu sei que quero amar e me coloco pronta a descobrir tudo que possa aqui despertar meu desejo. E falando a mesma língua, e falando de desejo, descubro encantamento no português. Estou longe de desvendar os sotaques e sorvo vagarosamente cada expressão nova. “Pois” e “mesmo” e “pronto” e “estar a fazer qualquer coisa em qualquer sítio”.

E hoje, em Braga, meu Portugal ainda se confina a Coimbra.

E minha Coimbra é acordar tarde porque manhã e frio não combinam.

É pegar o autocarro rumo à Universidade e descer na paragem “Arcos do jardim”.

É conhecer a cidade no outono.

Minha Coimbra não é leveza, é densidade.

É um ar que carrega o fado e a poesia e a vaidade acadêmica e a hospitalidade universitária. Coimbra acolhe.

Eu, mulher e mineira, tenho mais é que ficar na defensiva. Olhar apaixonado de flerte, não de entrega.

Meu Portugal ainda tem poucos portugueses e isso não pode ser. Mais Pessoa que pessoas, diz a desassossegada em mim. Mais isso já daria um outro rabisco.  Por enquanto, deixo-vos com outra versão mesmo deste. Com amor.

Débora.

 

CONIMBRI-SENDO.

 

Conimbri-sejo assim:

Habito o solum.

Minha paragem são

os arcos do jardim.

 

Conimbri-vejo assim:

Margens do Mondego.

Cabra e Portagem.

Biblioteca e botequim.

 

Conimbri-sorvo assim:

Vinho na praça.

Café na Baixa.

Sotaques pelo caminho.

 

Coimbra acolhe assim:

Intensa luz da cidade densa

A deitar sobre mim.

Débora Piacesi.

 

ME RIO Fevereiro 12, 2009

Arquivado em: Uncategorized — dpiacesi @ 3:11 pm

 Meu rio de águas caudalosas

Da pedra cria a curva.

Meu rio não arrasta barrancos

Só faz-que, fazendo barulho…

Meu rio acaricialisa a rocha e segue…

Sedento de rocha, sedento de mar.

 

11.02.09

 

Débora Piacesi.

 

MIM NO TAURO. Janeiro 29, 2009

Arquivado em: Uncategorized — dpiacesi @ 2:37 pm

No livro de poesias que ganhei de Clarisse e Rodrigo no dias dos meus trinta anos encontrei a descrição que Sophia de Mello Breyner Andresen fez de mim:

 

“POETA TRÁGICO

 

No princípio era o labirinto

O secreto palácio do terror calado

Ele trouxe para o exterior o medo

Disse-o na lisura dos pátios no quadrado

De sol de nudez e de confronto

Expôs o medo como um toiro debelado”

 

Que traduzi assim:

 

MIM NO TAURO.

 

Poeta rota com medo da vida.

Quem muito teme,

Sembra corardente.

Viver pode ser da ordem do leve?

Animal perguntante nem deixa.

Labirinto por companhia.

Fome de vento na cara. 

E que vente solzinho.

 

28.01.09

 

Débora Piacesi.

 

E aí me lembrei dos meus 15 anos e pesquei esse poeminha lá atrás. Repetir é mesmo o dom do estilo.

  

 POEMA Nº 33.

 

Nasci com idéias de Dédalo

Quero criar asas

Fugir de qualquer labirinto

 

 

Na forma escrita

Eu expresso

Esse desejo

Já conheci o mundo inteiro

Trancada no meu quarto

 

Viajar, viajando

Já disse o ditado

Ou a pessoa é lida

Ou é corrida

 

Me sinto triste

Ao pensar

Que a humanidade

Que nasceu

Com idéias de Dédalo

 

Está acabando por se tornar

O mais perfeito restauro

Do próprio Minotauro.

 

27.06.94

 

Débora Piacesi.

 

CÁ ESTÁ. Janeiro 29, 2009

Arquivado em: Uncategorized — dpiacesi @ 2:29 pm

Estranhos humores…

Durmo fado, acordo música cubana.

Nada muda.

A não ser meus dissabores.

Sempre tão diferentemente

Mesmos.

Encontro canto pra

Encantar amigos

Em qualquer canto.

Me encontro crítica

De um saber dessabido

E ressabiado.

Mas é encontro.

O tempo me acompanha.

Esse dos outonos e primaveras.

Se amarelo, ainda ensolarece.

Ainda que seja um dia chuvoso

Como hoje.

Eu tenho um pacto com o céu.

Só ainda não achei meu espaço.

 

28.01.09

Débora Piacesi.

 

ETERNO RETORNO. Janeiro 19, 2009

Arquivado em: Uncategorized — dpiacesi @ 6:35 pm

 

Não houve viagem alguma.

Ninguém chegou ao sítio onde era esperado.

Ampulhetaram o tempo.

 

Não houve entrega alguma.

Nenhuma experiência verdadeira.

Negaciamassagaram a chance.

 

Não houve mal cortado na raiz.

Nada do que foi dito foi comprido.

Que trajeto segue o elefante?

 

Mulher de tempos contados.

Menina dos dias cinzentos.

Meu reino é lágrima.

 

18.01.2009

 

Débora Piacesi.

 

 

Agosto 17, 2008

Arquivado em: Poemas. — dpiacesi @ 10:29 pm

Eu sou Débora, o que me põe para abelha.
Eu sou da Cunha, o que me põe para ferramenta e para Portugal.
Eu sou Piacesi, o que me põe para Piacere a te com o maior prazer.
Eu sou professora e poeta, o que me põe para fascínio e fascinação da palavra.
Eu sou mulher, o que me põe para o desemparo.
Eu sou menina, o que me põe para bolhinhas de sabão e felicidade com o vestido novo.
Eu sou a tia do Felipe, o que me põe para sorrir e para babar.
Eu sou amiga, o que me põe para cão de guarda até o rastro do céu ou do inferno.
Eu sou intensa, o que põe para opostos e desassossegos.
Eu sou assim.

Débora Piacesi 17.08.08

 

CRÔNICA PESSOAL DO AMARELO. Agosto 15, 2008

Arquivado em: Uncategorized — dpiacesi @ 4:47 pm

Quando eu nasci minha mãe escolheu minha cor.
Nem rosa, nem azul, mas amarela.
Nas colchas da cama, na cortina do quarto,
nas fitas de cetim do vestido de aniversário.

Morei no Acácia Amarela,
apartamento 804.
Minha mochila da “Company”,
Nem preta, nem cinza, amarela.

Mudei para outro país,
a cor desse povo,
nem preta, nem branca,
nem vermelha, mas amarela.

O amor da juventude,
nem João, nem José,
mas “amarelinho”.

Hoje aceitei a cor escolhida por minha mãe.
Cristalizei uma idéia.
Estou convicta de que
a felicidade é amarela.

Ora a confimação:

A cidade amanheceu plantada de amarelo.
Quem não viu o tapete de ipês?
Se ousou não se comover,
não me conte.

Preciso ver refletida a comoção do amarelo nos olhos teus,
porque a poesia não morreu,
porque felicidade é comunhão,
porque basta um segundo de contemplação do belo
e a flor do ipê tapeteia para mim, para nós.

Débora Piacesi 12.08.08

 

Parêntesis Junho 17, 2008

Arquivado em: Poemas. — dpiacesi @ 10:49 pm

Nem colorido, nem incolor.
Nem sol, nem lua.
Nem árvore, nem vento.
Nem pássaro, nem caramujo.
Nem tempestade, nem cisco.
Nem indolor.

16.06.08

Débora Piacesi.