É sempre difícil começar por algum lugar que não seja o começo.
As conclusões mais fáceis são aquelas às quais se chega apressadamente. Pronto. É cedo para qualquer definição. Mas acredito que quanto menos tempo temos para o novo, mais severos são os juízos formados. Não posso sair detestando isso ou aquilo apressadamente porque fiz uma escolha às cegas de adotar, nesse espaço e tempo, Portugal por pátria temporária. Minha mãe me ensinou a ser grata. Meu pai também. Sendo assim, minhas primeiras impressões de imigrante têm o olhar de quem quer abraçar o esquisito. Meu desejo sempre esteve no novo, no desconhecido, no diferente. Gosto de reconhecer pessoas, cheiros, postos por esse viés.
Nesse reconhecimento inicial, eu sei que quero amar e me coloco pronta a descobrir tudo que possa aqui despertar meu desejo. E falando a mesma língua, e falando de desejo, descubro encantamento no português. Estou longe de desvendar os sotaques e sorvo vagarosamente cada expressão nova. “Pois” e “mesmo” e “pronto” e “estar a fazer qualquer coisa em qualquer sítio”.
E hoje, em Braga, meu Portugal ainda se confina a Coimbra.
E minha Coimbra é acordar tarde porque manhã e frio não combinam.
É pegar o autocarro rumo à Universidade e descer na paragem “Arcos do jardim”.
É conhecer a cidade no outono.
Minha Coimbra não é leveza, é densidade.
É um ar que carrega o fado e a poesia e a vaidade acadêmica e a hospitalidade universitária. Coimbra acolhe.
Eu, mulher e mineira, tenho mais é que ficar na defensiva. Olhar apaixonado de flerte, não de entrega.
Meu Portugal ainda tem poucos portugueses e isso não pode ser. Mais Pessoa que pessoas, diz a desassossegada em mim. Mais isso já daria um outro rabisco. Por enquanto, deixo-vos com outra versão mesmo deste. Com amor.
Débora.
CONIMBRI-SENDO.
Conimbri-sejo assim:
Habito o solum.
Minha paragem são
os arcos do jardim.
Conimbri-vejo assim:
Margens do Mondego.
Cabra e Portagem.
Biblioteca e botequim.
Conimbri-sorvo assim:
Vinho na praça.
Café na Baixa.
Sotaques pelo caminho.
Coimbra acolhe assim:
Intensa luz da cidade densa
A deitar sobre mim.
Débora Piacesi.